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Sunday, April 20, 2008

O livro da Luísa... parte 1

Como vocês devem ter percebido (ou não) estou há um bom tempo sem postar nada. O trabalho está me consumindo mais do que eu gostaria. Eu tinha previsto que isso ia acontecer e deixei um bom "estoque" de textos guardados. Mas não tinha imaginado que eu ia esgotar tão rápido.

Pra "ajudar", iniciei um projeto guardado há tempos: desenhar o poema que escrevi pra minha filha, Luísa, pra finalmente transformá-lo em livro. O objetivo: dar uma cópia a nossos amigos no aniversário dela, em 24 de Maio. Ou seja, estou atrasado... :)

Pra quem tiver interesse segue a primeira imagem que consegui produzir depois de muito esforço. O intuito é desenhar um livro infantil. O poema conta a história de Seu Pato e Dona Pata que, depois de muito sonhar, mas sem conseguir terem um patinho, decidem adotar um.

Depois que escrevi o livro do Enzo me dei conta que a história alcança bem adultos, mas não crianças. Daí o poema pra Luísa. Queria que o Enzo e a Luísa tivessem um jeito simples de entender como é a adoção, sem passar pelos detalhes sórdidos que só os adultos conseguem criar.

Quando o livrinho estiver pronto, vou colocar no site pra vocês verem. Mas não quero publicar o poema sem os desenhos. Eles são parte integral de como eu imaginei a história sendo contada.

Espero que vocês gostem.

Thursday, March 20, 2008

sumiu

Sumiu

A vergonha na cara
O respeito era a capa
A anarquia chuva
Na madrugada muda
A cidade palra

O cérebro pulsa
A verve morta
Pensamento sabota
Na manhã tensa
A falta volta

Sem sinal de salvação
A TV solução
Jesus escravidão
No inferno redenção
Deus um pulsão

Na hora que sumiu tudo
Na hora que partiu mudo
Berrou o som surdo
A plenos pulmões
Fumante inveterado

No segundo da hora
Vive a hora de cada um
Será que vive agora
A minha
Senhora?
Foda

Sumiu, mudo, na distância infinita entre o minuto que passou e o minuto depois que fui, valeu o quê a raiva, a dor?, sumiu, surdo, sem sinal, sonho, sabotagem, sacanagem

Sumiu

Tuesday, March 18, 2008

tempo maluco...

Hoje escrevo para vós diretamente de Bremen, na Alemanha, terra dos famosos músicos da cidade (no Brasil conhecidos como "Os Saltimbancos").

São duas da tarde, e olhar o tempo passar da janela nunca se mostrou tão interessante: já choveram duas vezes, nevou mais duas, caiu granizo agora há pouco e, nesse momento, o sol abre sua cara pela terceira vez. E um sol bonito, brilhante, dá até vontade de sair lá fora de camiseta, não fosse pelo fato que fazem 3 graus nesse momento.

Meus colegas alemães me disseram que isso é o que eles chamam de "tempo de Abril", ou seja, é assim mesmo. O único "porém" é que estamos em Março... isso tem outro nome, aquecimento global.

UPDATE: Agora ferrou de vez, tá nevando e com sol...

Sunday, March 9, 2008

coletivo e o espelho mágico

Era uma vez Coletivo. Ele vivia pra lá e pra cá. Pouco pensava no que fazia, pouco fazia. Não gostava de trabalhar, às vezes não trabalhava. Tinha fome, comia. Tinha sede, bebia. Às vezes comia demais. Às vezes bebia demais. Coletivo era meio besta, sem propósito.

De segunda à sexta labutava duro, mas nos fins-de-semana, sonhava. Todo sábado e domingo tudo que fazia era sentar-se ao espelho, narcisista que era. Mas não em frente à um espelho qualquer, comum, mas daqueles que distorcem a imagem. Um barato! Nele, Coletivo parecia muito melhor do que era de verdade.

Se era gordo, parecia magro. Se era feio, bonito. Se era pobre, rico. Comum, poderoso. Burro, inteligente. E por aí em diante. Tudo que fosse, o espelho fazia parecer melhor.

E ele gostava. Como gostava daquele espelho mágico. Ele não conseguia mais imaginar-se sem ele. Afinal, a realidade era muito pesada com Coletivo. Era muita violência, muita doença, muita pobreza, muito... muito! Preferia mil vezes ficar à frente do espelho do que encarar a realidade.

Lembrava-se, embora com dificuldade, da época que não tinha o espelho. Não sabe porque, mas tinha a impressão que a realidade não parecia tão difícil de encarar naquele tempo. Talvez por isso o espelho não fizesse tanta falta... mas não era uma vida fácil. Lembrava-se de ter protestado, gritado e lutado contra uma pessoa cruel cujo objetivo era lhe controlar a todo custo, lhe dizer o que fazer, quando fazer, como fazer. Elite era seu nome. Mas ele era jovem, motivado, animado. Tinha energia e disposição para a briga.

Os tempos eram outros, não tinha mais ânimo para protestar. Aceitou, ignorou, abstraiu. Afinal, ele tinha o espelho. Pra quê mais? Na frente dele parecia ainda melhor e mais bem disposto do que quando era jovem.

O espelho tinha sido um presente de Elite, como forma de selar a paz. Coletivo não era bobo, sabia que ela continuava tentando mandar nele como sempre. Mas agora as relações eram pacíficas, cordiais, profissionais. Ela era sua chefe na firma. Ele trabalhava, ela pagava o salário. Simples, fácil.

Mas um dia algo terrível aconteceu. O espelho quebrou. Não ligava mais. Suas imagens tão bonitas agora chiavam cinza como que rindo de seu sonho apagado. Coletivo não conseguia pensar, não conseguia reagir. Quis reclamar, quis matar Elite. Mas tanto tempo se passara que não sabia o que fazer. Sentiu-se impotente, amputado.

Contra o tubo desligado viu seu verdadeiro eu, que há muito não encarava. Aquela imagem acabada, desesperançada, vendida, tão distante da lembrança que tinha de si, não deixou dúvidas do que tinha de ser feito. Agarrou seu precioso aparelho de TV queimado e pulou da janela do 10o andar onde morava.

Saturday, March 1, 2008

blue screen of death

Há duas semanas atrás, passamos o final de semana num lugar muito legal chamado Center Parcs. Na verdade é uma rede de parques privados com chalés que você pode alugar pra passar toda semana ou um fim-de-semana apenas. Lá você tem uma infra-estrutura de lazer muito legal à disposição: piscinas aquecidas, bicicletas, quadras de tênis e por aí vai. Nesse que fomos tinha um algo mais: esqui indoor. Pensei: que ótima chance de matar saudades do Canadá.

Eramos três casais com sete crianças (minhas inclusas). No dia do esqui fomos em comitiva: todos os homens e todas as crianças (exceto a Luísa; lamentavelmente não tinham esquis pra crianças que não sabem andar). As mulheres acharam uma boa idéia ficar longe dessa "fria" (trocadilho não intencional).

Fomos esquiar, Enzo e eu. Claro que tive que acompanhá-lo o tempo todo. Num determinado momento, ele esquiou sozinho até o sopé do morrinho que lá havia, mas caiu no final. Eu vinha descendo logo atrás. Ao vê-lo chorando, fiz uma curva pra alcançá-lo mas me empolguei e cai também. A minha posição de queda foi tão ignóbil que eu não conseguia levantar. A única saída era remover os esquis.

Nesse momento percebi que minha posição era tão abjeta que minha mão não conseguiria alcançar a trava dos esquis pra soltá-los. Enzo continuava chorando. Eu então estiquei minha mão beeeem atrás de meu corpo, girando minha coluna quase 180 graus, num heróico esforço pra me livrar dos esquis. Nesse momento senti um "plec" dentro do meu braço. Pensei: isso vai doer amanhã. Mas alcancei os esquis, me levantei e peguei o Enzo. Problema resolvido.

No dia seguinte uma dor infernal fazia festa dentro do meu braço direito. Esse constante sofrer, que me acompanha enquanto escrevo essas tortas linhas, se manifesta na forma de um formigamento interminável irradiando do meu dedo indicador até o final do ante-braço. Amém pelo Ibuprofeno. Me dá vontade de dar um tiro na minha cabeça só pra me livrar da raiva que sinto de ter dado a maldita esticadinha pra soltar os esquis.

Claro que, depois de uma semana à base de analgésicos, fui à nossa médica de família (estou quase chegando ao clímax, segurem aí). Depois de fazer alguns exames rápidos ela decretou que eu provavelmente danifiquei ou machuquei um nervo da minha coluna. Nada de importante, claro. Me encaminhou então para um especialista em nervos e músculos.

Fui ao especialista na semana seguinte. Chegando lá fui atendido por uma médica, expliquei a história de novo e fizemos mais uma série de exames táteis. Finalmente, ela pediu pra que eu tirasse a camisa e sentasse ao lado de um aparelho.

O dito tinha vários cabos saindo dele. Um deles ela prendeu no meu braço. Outro, no meu dedo. E um terceiro ela molhou numa solução e encostou numa parte do meu pulso. Achei que fosse algo como um eletrocardiograma, que coleta informações que meu corpo está gerando, mas era uma versão mais sofisticada que não só recebia "input", mas dava "output" também. Em resumo, o aparelho ia testar meus nervos por meio de eletro-choques dados pelo terceiro cabo.

Pensei em correr. Talvez se eu derrubasse a máquina na médica tivesse uma boa chance de alcançar a porta antes dela se levantar. Mas eu já estava preso e qualquer movimento em falso podia resultar na cadeira elétrica. A idéia de receber choques não me preocupava (é, com certeza) mas sim um pequeno detalhe que notei na tela do aparelho. Resignado, me entreguei. E lá foi ela dando choque aqui, choque ali. Minha mão pulava como milho de pipoca em panela quente. Loucura, loucura. Algumas vezes realmente doeu.

Terminada a sessão de tortura, ela informou que essa era apenas a primeira metade. Mais choques, perguntei desconsolado? A afirmativa era o menor dos problemas, pois ela informou que o simples contato com a pele não resolveria mais. Pra testar meus músculos, os choques seriam administrados via uma agulha enfiada no meio deles.

Eu não sou (muito) cagão com coisas de hospital. Não ligo de levar injeção. Em condições normais de temperatura e pressão não seria nenhum grande drama levar choques através de um pedaço de metal atravessado nos meus músculos. Afinal, essas máquinas hospitalares são amplamente testadas e contém várias travas de segurança pra evitar que eu frite até a morte.

Mas havia um pequeno detalhe no satânico aparelho que deixava tudo muito mais perigoso. Algo tão assustador que me fez torcer para que o filho-da-puta que inventou a porra do equipamento tivesse a mãe na zona. Aquilo que apareceu na tela antes da sessão começar era tão macabro que somente alguém totalmente desprovido de senso comum aceitaria tomar choques via computador sem protestar.

Logo após me prender à máquina ela apertou uma tecla e pude ver, por um breve momento, o salva-tela que desaparecia. Dançando pra lá e pra cá, vi o logotipo do Windows XP.

Friday, February 29, 2008

passageiro(s)

O que é esse nosso mundo?
Engraçado, tão bonito, tão ignorado.
Nós vivemos tão centrados em nosso umbigo, que não reparamos no resto.
Resto, sobra, excesso. Só a nós nos importa.
Pessoas, percebo, passam centradas em si. É um mundo engraçado.
Nós passamos pelo mundo à ignorá-lo, ignorantes de que quem está de passagem somos nós. Mas tudo bem, o nascente virá amanhã, certo como o poente.
Pena que tão poucos páram para apreciá-lo.

e agora, josé?

O terreno frágil onde pisava rangeu. Não sabia mais se seguia ou volvia. Pra trás, o rastro incerto que deixava clara a ausência de propósito. Mas a cada passo, mais longe da borda se encontrava, mais arriscado voltar se tornava, mais comprometido estava. Já estava longe demais. A responsabilidade, o medo, a insegurança.

Voltava o pensamento ao passado, lembrava-se de como havia iniciado a jornada. Nada intencional, nada proposital. Um desejo, vontade, pressão. Via todo o grupo seguir viagem, ficou com medo de ficar pra trás.

Os primeiros passos foram fáceis, simples. Sentiu grande alívio ao percebê-lo, pois pensou que seria sempre assim. Mas logo notou que seus colegas tomavam rumos diferentes do seu. Tinham diferentes objetivos e logo se viu sozinho. Aquele medo de ficar para trás tornou-se concreto.

Sentia que cada passo em frente era como avançar pisando num lago congelado, cuja cobertura de gelo se afina quanto mais se aproxima do centro. E era onde estava agora, no meio da jornada, no centro do lago. Por que não ficou na borda? Lá, ao menos, estava seguro.

Engraçado pois agora lembrava que quando se viu só, no início da jornada, não pensou em voltar. Algo além do medo o moveu pra dentro do lago congelado. A possibilidade de descoberta, o desconhecido, o cacete. Nunca tinha racionalizado direito, mas foi o que todos fizeram e ele fez também, boa ovelha que era.

Mas ficar só, isso não estava nos seus planos. Era verdade que de vez em quando cruzava com seus colegas que tinham iniciado jornada juntos. Mas era acidental e temporário. Eles continuavam buscando destino diferente do seu.

E ele se perguntou: qual é o meu destino? E como os outros definiram os seus? Como sabiam pra onde ir? Inquiria cada um que cruzava, na ânsia de descobrir como conseguir o mesmo para si. Mas as respostas eram desalentadoras. Quase todos tinham começado viagem assumindo que, já que seu vizinho tinha um destino, eles também tinham de tê-lo – e mesmo sem destino, seguiam viagem. Alguns poucos, raras exceções, tinham destino claro e definido. Mas não precisava de muito tempo para perceber que não tinham vindo de si, mas de outrem.

E ele continuava seguindo, até que encontrou alguém que quis se juntar a ele em seu caminho. Era uma pessoa diferente pois não queria saber de destino, mas de companhia. Também não queria seguir só. E gostava dele, do seu jeito de falar e de pensar. Ele estranhou, pois nunca tinha experimentado se afeiçoar de ninguém. Não via o propósito. Mas algo estranho, dentro de si, fez com que esse afeto tornasse-se recíproco.

Durante algum tempo ponderaram, juntos, o objetivo dessa união de forças. Mas objetivos faltavam. Tudo que tinham lhe conectando era esse amor que sentiam um pelo outro. A discussão por objetivos tornou-se fútil, e seguiram caminho.

Wednesday, February 27, 2008

ode ao meu celular

Ó celular, celular
Quantas chamadas você aguentou
Quantas porradas você levou
Quanta queda você tomou
E nunca falhou

Ó celular, celular
Seu teclado tem um segredo
Abre com a força do dedo
E revela por dentro
Um QWERTY completo

Ó celular, celular
Quantas noites não veio me atormentar
Quantas manhãs não foi me acordar
Quantas vezes você foi tocar
Acho que minha esposa quer te matar

Ó celular, celular
Seu teclado e bloco de notas
Ah, quantas notas
Tomou e anotou
E no final com o PC sincronizou

Ó celular, celular
Por todo mundo já estiveste
Norte, sul, leste, oeste
Por quantas operadoras já passou
Quantos chips, abrigou

Ó celular, celular
De quantas frias me salvou
Quando fingiu que tocou
E a companhia que me prestava
Enquanto eu cagava

Ó celular, celular
Estou com muito medo
Pois você está velho
Acho que deixar-me-á na mão
No próximo escorregão

Ó celular, celular
A nova geração vem me chamar
Todos dizem pra eu te trocar
Mas, firme, digo não
Qual outro celular tem jogo de gamão?

Ó celular, celular
Recentemente vim a estranhar
Meus ouvintes dizem não me escutar
O que houve com seu microfone?
Temo que você não mais funcione

Ó celular, celular
Sua hora está se aproximando
Seu vibra-call está falhando
De se esperar, como seria
Para um eletrônico feito na China

Ó celular, celular
Não sei como te substituir
Preciso um teclado premir
Com QWERTY completo
E que caiba no bolso

Ó celular, celular
No final o que fazer?
Parece que você vai morrer
Mas enquanto funcionar
Não vou te trocar

Ó celular, celular
Se não me ouvirem direito
Apelarei para o grito
Pois após tantos anos que se passaram
Um melhor ainda não inventaram

Saturday, February 23, 2008

seu mp3 player está online

Há algum tempo, minha irmã me apontou para o Deezer. Um site incrível que permite que você monte suas playlists na Internet, com quaisquer músicas, e ouça-as a partir de lá -- tem inclusive vários artistas brasileiros! Mas, diferente de várias outras variantes safadas, você realmente opera como se seu MP3 player tivesse ido parar na net: não há limitações.

Você pode ouvir a mesma música vinte vezes (ou mais -- é que eu gosto do vinte), voltar atrás nas músicas já tocadas, colocar pra tocar a partir de qualquer ponto no meio da música, enfim, você se sente como se estivesse operando seu _____________ (insira seu "media player" favorito, e.g. iTunes, WinAmp, Windows Media Player).

Me perguntava quanto tempo iria durar até que alguém caísse matando com um processo, mas os autores do site fecharam recentemente um acordo com a Sony BMG abrindo caminho para que outras "majors" licenciem seu catálogo, tornando o serviço efetivamente legal.

"Show me the money"

O modelo de negócios é baseado em anúncios. Acredite se quiser. Eles estão compartilhando com os artistas (via gravadoras) um percentual dos anúncios veiculados no site, baseado nas freqüência que as músicas são ouvidas. No Brasil a Trama está tentando modelo similar, mas baseado em downloads.

Esse me parece o modelo mais sensível de "monetizar" (tradução: fazer dinheiro nas costas de) todos esses downloads ilegais. As pessoas vão ouvir as músicas mesmo, e vão baixá-las na net de um jeito ou de outro. Pelo menos se os artistas estiverem sendo remunerados no processo, vai ser melhor pra todo mundo. Além disso, segundo um estudo recentemente divulgado sobre TV online, parece que o modelo realmente faz sentido para a parte que vai pagar a conta: os anunciantes.

Entretanto, o modelo é a validação de que música não tem um valor intrínseco em si e que deve ser dada de graça, como TV aberta ou rádio. Será que teremos música "a cabo" no futuro, ou seja, certas músicas somente serão distribuídas através de um canal pago? Eu creio que não, pois o que importa aqui não é a qualidade do conteúdo (como qualquer um com TV a cabo pode testemunhar que não é o ponto forte) mas sim controle: na TV, como no rádio, você assiste ou ouve o que aquilo que os programadores querem. Portanto, tem horas que vai ser uma porcaria, em outras vai ser muito bom.

Já na net, você pode ouvir ou ver o que quiser, quando quiser. Sempre se profetizou que consumo "on-demand" seria a chave para cobrar algo diretamente dos "consumidores de mídia" (eu prefiro "apreciadores de cultura"), exemplo mais famoso sendo os canais de TV "pay-per-view". Mas a net subverteu esse modelo ao dar acesso de tudo, a qualquer hora, pra todos, de graça, embora não necessariamente compensando os criadores do conteúdo.

Mas é engraçado que, pelo menos comigo, eu preferiria que houvesse uma fonte oficial desse conteúdo, emanando dos próprios artistas, gravadoras, produtoras, etc. Assim eu teria certeza de que a qualidade é boa, que os arquivos estão completos, que os dados como nome do artista, música, capa, etc., estão corretamente preenchidos e, mais importante, eliminaria aquela famosa "sensação de não estar fazendo a coisa certa", assegurando a compensação de quem se esforçou na criação da peça.

Se ao menos houvessem opções oficiais, contendo conteúdo completo, com flexibilidade para ver o que eu quiser, quando quiser, e fácil como ligar a TV ou o rádio, bastaria apenas ligar ao conteúdo anúncios dirigidos ao perfil de quem ouve ou assiste (que na net são uma real possibilidade) e, caso nosso amigo do estudo esteja certo, a conta fecharia -- fazendo todo mundo feliz no processo.

É engraçado que a indústria da TV, com todo o histórico de "pay-per-view", TV a cabo e DVDs vendidos e alugados, seja aquela a encarar isso como o caminho mais óbvio (ver exemplos linkados acima) ao passo que a da música prefere continuar insistindo no modelo de downloads pagos (a única boa opção no modelo por anúncios, e mesmo assim semi-oficial, é o Deezer).

Outra das propostas que ouvi recentemente envolve um complexo sistema de monitoramento do tráfego da Internet por parte dos provedores de acesso para determinar quem está ouvindo o quê e, consequentemente, saber como dividir a grana. Mas de onde vem a grana nesse caso, você pergunta? De uma "taxa de música" fixa, cobrada junto da assinatura de seu provedor. Na minha opinião isso abre caminho para um monte de reclamações de pessoas que estarão pagando o mesmo que aquele panaca que não faz mais nada da vida além de ficar online baixando músicas -- o que também não é justo.

O modelo correto tem que assegurar que o artista possa viver de música (e não sobreviver), de forma que ele tenha incentivo para continuar produzindo, e ao mesmo tempo cobre o valor certo de quem consome -- uma forma de cobrança é a exposição à propaganda, claro. Conforme podemos ver nos exemplos atualmente disponíveis ainda há um bom caminho até chegar lá, mas o Deezer parece definitivamente um passo na direção certa. Vamos torcer para que as grandes gravadoras acordem para ele.

Para mais detalhes sobre o Deezer, siga esse caminho.

se você não leu minha nota sobre avisos, bebês e medo...

Veja a versão resumida da minha nota, escrita por Tatsuya Ishida (SinFest, altamente recomendável) que se utiliza da técnica de "mil e uma palavras" (saiba mais aqui) pra entregar a mensagem:

Sunday, February 17, 2008

sem título

Abriu os olhos.

Procurou por algo que devia estar lá. Era algo doce. Algo bom. Não sabia.

Era domingo. O celular não tocou o despertador. Sol gostoso entrava brilhante e o vão da janela deixava o friozinho da manhã entrar. Sentia seu pé sem meias, procurar o cobertor quente. Aquele quente-frio do cobertor-pé gelado. Era isso?

A memória se fazia de desentendida. Preso como num sonho em que sabe-se que está sonhando mas que não consegue-se despertar. Estranho. Escovou os dentes. Escova elétrica. Gostava do zumbido na gengiva. Sangrando. Tinha que ir no dentista, pois só a escova não estava resolvendo. Mas pelo menos hoje não doía. Era isso?

Voltou pra cama, sentiu-se cansado. Quis entregar-se. Não, não. Acorda! O que falta?

Uma dor repentina rasgou o peito. A espinha, fria. Tremeu, abraçou o travesseiro. Sentiu a dor invadindo seu corpo. Não conseguia controlar. Não, não, não. As lágrimas. Não, ele não. Eu preciso dele. Queria dormir, queria esquecer, queria desaparecer.

A falta, a ausência, o abraço na manhã de domingo. O peso do seu corpo contra o seu. O afago em seu cabelo. O beijo. Era ele. Tão longe estava o tempo em que estiveram juntos. Que falta fazia.

Era dejà vu. Seria melhor se fosse um sonho. Doeria menos. Aquele quarto, aquela roupa de cama, aquele sol brilhando daquele jeito no quente-frio do quarto, o cheiro daquela manhã.

Ele não acordava sozinho no domingo, nunca acordava por conta própria. Nos dias de semana o celular despertava, mas em manhãs como aquela era sempre ele que o fazia.

Sentiu seu coração vazio ao perceber que seu filho não veio lhe acordar para brincar. Já faziam 20 anos que as manhãs de domingo não tinham aquele cheiro.

Friday, February 15, 2008

gu-gu dá-dá! somos todos bebês, quem vai ser a babá?

Hoje em dia tudo vêm com termos de uso e avisos.

Compre um chocolate: "fábricado em um local que lida com nozes, ovos, castanhas e outras coisas que outros seres humanos comem, mas que podem te matar, se você for alérgico a eles, pelo simples fato que eles estiveram ao mesmo tempo, na mesma fábrica."

Entre num site: "este site é provido a você AS-IS, portanto nem pense em processar os autores já que nós nos isentamos de qualquer culpa caso você siga as instruções de construção de bomba atômica caseira que você lê nesse momento."

Abra o freezer e veja a bela foto dos nuggets de frango: "sugestão para servir, já que você pode pensar que ao abrir a caixa, você irá encontrá-los já fritos, num prato e guarnecidos pela alfacinha."

Ou ainda na TV: "esse remédio não deve ser usado em caso de suspeita de dengue, mas na verdade você devia procurar um médico antes de sair engolindo qualquer droga que aparece na TV; mas já que você não vai, não venha processar a gente depois dizendo que a gente não avisou."

Ou o meu preferido, no café: "cuidado, o conteúdo está MUITO quente; não vá se queimar, sua besta."

No final das contas, qual é o objetivo aqui? Em alguns casos é dizer: não nos diga que você não sabia. Ao transferir a responsabilidade para o usuário final, o proclamante se isenta de toda e qualquer responsabilidade, e o usuário que se vire.

Nesse grupo de avisos, a conseqüência natural (sinto muito, mas abolir a trema é jogo duro; deixo essa pra geração do meu filho) é o abuso. A partir do momento que escrever uma frase no lado de fora do pacote te isenta de responsabilidade, isso vira um cartão de saída da prisão (Banco Imobiliário, alguém?)
Um ótimo exemplo são os termos de uso dos softwares da Microsoft. Na embalagem, do lado de fora, está escrito que "ao abrir a embalagem você tacitamente está aceitando os termos de uso do software." E onde estão os termos de uso? Dentro da embalagem, é claro. Não só isso, lá nos termos você encontra um aviso dizendo que, caso haja algum dano ao seu computador (tipo, sei lá, algo sem importância como o "hard-disk" ser apagado), a Microsoft só pode ser processada por danos ao máximo de 5 dólares, além de outras espertezas.

Jóia, não? Como disse um dos meus colunistas favoritos, vamos parar com essa viadagem e vamos logo pro que interessa: vamos escrever nos termos de uso que, caso você abra a embalagem, o Bill Gates vai poder trepar com a sua esposa. Ele mesmo (o colunista, não o Bill Gates) bolou os termos de uso para o site dele em resposta a essa "onda" e é um "must-read" (apesar das letrinhas miúdas). Se você dispor de 10 minutos e estiver afim de rachar o bico, vá lá.

Mas existe uma outra categoria de avisos e termos de uso, uma bem mais perigosa que o simples cartãozinho de Banco Imobiliário. É o bicho-papão.
Esses avisos são aqueles que querem te assustar. Eles querem que você tenha medo de tudo e de todos. Um dos mais famosos:
Pra quem não conhece, esse é o sistema de avisos de segurança do governo dos EUA. Ele tem 5 níveis. Severo, alto, elevado, guardado e baixo. Quatro deles indicam que você tem que ficar esperto por que, a qualquer momento, a qualquer hora, em qualquer lugar, quando você menos esperar, o Bin Laden pode cair na sua cabeça com outro 747. O quinto diz pra você que as chances disso acontecer são menores, mas fique esperto seu punk porque não é impossível. Adivinha quantas vezes, desde que esse sistema foi estabelecido em 2002, o aviso chegou no azul ou verde? Nenhuma, claro.

Esse é o próximo passo no sistema de avisos e termos de uso. Vamos assustar, vamos deixar eles com medo, com tanto medo, que eles não vão ter coragem de sair de casa. Tudo que eles quiserem fazer, eles vão checar com a gente antes. Eles não vão fazer nada que a gente não queira que eles façam. E já que estamos no pique, vamos fazer eles comprar tudo que a gente mandar. Bem vindo ao Controle das Massas "Millenium Edition"!

Quanto mais te tratarem como um bebê, quando mais imbecilizado você for, mais fácil que te manipulem. Afinal de contas, alguém tem de ser a babá para todos esses bebês -- o governo, as grandes corporações de mídia e de manufatura irão rapidamente se oferecer a carregar esse "terrível fardo".

Quer tratamento de bebê mais explícito que o que eu encontro em cima da torneira da pia de praticamente todos os hotéis que tenho me hospedado na Europa?

Mas o pior é que nós gostamos de sermos tratados como bebês. Nós gostamos de não ter que pensar. Esse é o sonho secreto, mais recôndito de todos nós: a inveja dos animais. Os animais não precisam pensar, se desgastar, se assustar, se emocionar. Eles tem o instinto, que supre essa ausência. Suas respostas são automáticas, condicionadas a cada ato. Um afago é respondido com um abano de rabo. Uma explosão, com a fuga.

No ser humano não. Todas nossas respostas vêm após uma reflexão, que leva em consideração inúmeros fatores. O ser humano é o único ser que tem uma quebra entre o fato e o ato. Nessa quebra, nesse vão, mora nossa consciência. E quem não quer se ver livre dela, pra poder agir sem pensar?

Mas esse papel não nos cabe. A evolução nos carregou para além dos animais que agem puramente por instinto. Somos ou não somos o homo sapiens? Dado que o cérebro está lá, caso você queira agir sem pensar é preciso que alguém pense por você. A televisão, o governo, as marcas, você escolhe. Todos eles estão doidinhos pra assumir o serviço, basta você deixar.

Espero que você, na próxima ver que ler um desses avisos imbecilizantes, te chamando de volta pra casa, pra se proteger, pra salvar seus filhos, use seu bom senso e considere que você já é um adulto, com capacidade suficiente pra julgar por sua própria conta os riscos que o dia-a-dia lhe oferece. Não ceda o controle.

E da próxima vez que você ler um desses termos de uso imbecis, por favor, processe. Processe com gosto. Processe até a conta do advogado fazer bico. Mas, por favor, não por ter sido "enganado" pela foto bonita na embalagem (que dentro dela não tinha a alfacinha) ou pela propaganda de cigarro que vai fazer você virar o terror da mulherada (mas morrer de câncer no processo) ou por ter piorado a sua dengue porque você tomou aspirina.

Processe por que eles te trataram como um bebê que não tem condição de julgar o que é melhor pra você e pros outros à sua volta.


Leitura complementar:
Everyone's gone nuts: The exaggerated threat of food allergies, na Harper's magazine (exemplo prático)

Referências:
Big babies or Why can't we just grow up, por Michael Bywater
(excelente leitura sobre o tema)
Psiche e Techne: o homem na idade da técnica, por Umberto Galimberti (ver "Terceira parte - Psicologia da técnica: teoria da ação" para a excelente análise sobre a separação homem-animal, instinto-consciência; esse livro vai dar pano pra muita manga ainda)

Monday, February 11, 2008

mptexto?

A indústria editorial está se esforçando em achar uma maneira de fazer pelos livros o que o MP3 fez pela música. Algum grande cacique na indústria se convenceu que o livro é a próxima vítima da digitalização e, como bons gatos escaldados (que viram o que está acontecendo com a indústria fonográfica), estão tentando chegar à frente para, dessa vez, terem um modelo de negócios que traga lucros e não processos na justiça.

Mas o esforço falha em capturar um detalhe: a música é uma experiência puramente auditiva, ou seja, o que importa é o que você está ouvindo, e não como esse som chega ao seu ouvido.

O livro, por sua vez, é uma experiência que (ao menos pra mim) envolve ambas as partes. Já tentou ler um livro inteiro na tela do seu computador? Vamos lá tente, eu ajudo.

Terrível, não? Nenhum ser humano consegue fazer isso por muito tempo. Além disso você não consegue deitar na cama com a tela do seu computador em apenas uma mão, levá-la ao banheiro para aquele profundo momento de reflexão (embora já tenha ouvido histórias de laptops no reservado) ou simplesmente ter o gostinho de ter sua coleção na prateleira para, de vez em quando, redescobrir um texto perdido. Finalmente, a sensação tátil do papel e olfativa da tinta é algo indescritível.

No intuito de endereçar a maioria desses problemas, a Amazon lançou o que ela espera ser o equivalente do iPod dos livros -- e torcendo para que, no processo, ela vire o equivalente da iTunes.
O Kindle é realmente portátil (ver acima), leve como um único livro (tem menos de 300 gramas) e utiliza uma nova tecnologia chamada "electronic paper", que elimina o desconforto dos olhos ao ficar olhando para uma tela cuja matriz está constantemente se renovando. O "e-paper" trabalha com minúsculas partículas que ficam ativas e inativas por força de uma carga elétrica. Dessa forma, a matriz não está sendo renovada a todo tempo. Mas essas partículas mudam de "estado" fisicamente falando quando recebem a carga elétrica, portanto a página continua lá mesmo quando o aparelho fica sem bateria. Certos conceitos não morrem nunca...

Além de tudo, ele inclui a capacidade de se comunicar sem fio, via rede celular, com a Amazon. Dessa forma o usuário pode, através do próprio aparelho, comprar novos livros. Sem cabos pra sincronizar com o PC, sem PC na verdade, ele é totalmente "stand alone". Pra fazer as coisas ainda mais fáceis o usuário não paga nada por mês pra acessar a Amazon -- eles pagam a conta da companhia celular na expectativa de recuperar o custo (e muito mais) através da venda de livros digitais.

O aparelhinho foi lançado em novembro passado, por enquanto exclusivamente nos EUA, e está constantemente esgotado apesar do seu precinho salgado de US$ 399,00. Parece a primeira tentativa na direção correta. Mas ainda tem seus defeitos: falta inventar o cheirinho de tinha e a textura de papel eletrônicos.

Sunday, February 10, 2008

és velho

É engraçado como o tempo vai passando, passando e a gente não percebe. Não realizo que já sou considerado "adulto". Tenho uma cabeça não muito diferente dos meus 20 anos, quando eu me achava "jovem". Claro, amadureci em muitos aspectos. Mas sempre me encarei como o mesmo de sempre.

No final das contas aquele dito sobre que a idade da gente está na cabeça é a pura verdade: na minha, ainda tenho 20 anos. Percebi que não só eu acho isso quando vi a "tagline" de meu pai no MSN: "Meu Deus! Eu tenho um filho de 30 anos!" Imagino que ele também acha, em sua cabeça, que não tem mais que 20 anos.

Mara diz que eu tenho encanado com a idade por causa dos 30. Tenho mesmo. Mas o resto do mundo não tem ajudado também -- você passa a ser velho aos olhos dos outros, dane-se o que sua cabeça acha.

Na sexta, minha assistente estava conversando comigo e, ao mesmo tempo, digitando incrivelmente rápido em seu celular um SMS, com uma só mão. Ao notar, comentei: "nossa, você é rápida com isso", no intuito de fazer um comentário sobre sua capacidade individual. No que ela me respondeu: "é que eu sou da geração do celular, né?" De repente, meu comentário não reflete mais a habilidade pessoal dela, mas a inabilidade de toda a minha geração, da qual ela, do alto dos seus 24 anos, não se inclui.

Finalmente, ao assistir o segundo episódio da quarta temporada de Lost, vi uma cena em que a data de nascimento de determinada personagem é revelada, ao longo de suas credenciais: PhD disso, doutora daquilo, etc., etc. Ano de nascimento da dita: 1979.

É, o mundo me decretou velho. Quem sou eu pra discordar?

Saturday, February 9, 2008

super mario family

Hoje foi um dia interessante. Mara chamou amiguinhos do Enzo (parte da "comunidade" InBev-brasileira na Bélgica) pra dormirem aqui em casa ontem à noite. Fizeram um fuzuê. Brincaram, pularam, cantaram e por aí vai. Em algum momento, finalmente, dormiram...Sim, aquele fazendo cara de palhaço é o meu, Enzo. A pequenina sentando com ajuda também, Luísa. Ao acordar hoje (às 7h15 da manhã), e após o café-da-manhã, seguimos à um parque próximo de casa, onde encontramos os pais de cada criança. Lá, almoçamos. Um tempo tão gostoso que não parecia a Bélgica:Fala sério, a foto acima não tá escrito "vai dar merda" nela todinha? Mas enfim...

O motivo pelo qual comecei essa nota foi pra falar do final desse dia. Voltamos pra casa cansados. Mara então, cansadíssima. E de repente, ela falou pro Enzo: "vamos colocar o Mario pra gente jogar?"

Aqui em casa temos um Wii, e recentemente Enzo fez jus ao novo "Super Mario Galaxy" (explicarei como em outra nota). O jogo é incrivelmente viciante. Nunca consegui interessar a Mara em video-games e outras tranqueiras do gênero que sou apaixonado. Mas o Wii conseguiu essa proeza. Esse não é o primeiro jogo que ela joga no Wii, e constantemente me pergunta a respeito do próximo lançamento: Wii Fit.

Foi realmente uma tacada de mestre da Nintendo construir um video-game para o resto de nós (os "non-gamers"). Ano passado atingi meus 30 e apesar de continuar amando video-games, passei da minha fase "hard-core". Jogos de luta, carros, guerra, enfim. Apesar de me atraírem muito, exigem muito mais tempo e atenção do que poderia dispender hoje em dia. Família e trabalho vêm primeiro.

Mas aí vem a Nintendo e desenvolve um video-game que é um sucesso entre todos aqui em casa. Mas como eles conseguiram? Cheguei a conclusão que dois componentes, um mais valorizado que o outro, foram os responsáveis.

O controle (Wiimote) é o primeiro que vêm a mente. Quem não lembra a sensação de ir no Playland do shopping pra se divertir nos jogos eletrônicos? Quem lembra daquele que você vestia uma luva de boxe e dava socos? Ou de dirigir um carro, com volante, pedais e tudo?

Por serem máquinas dedicadas, esses jogos sempre puderam contar com controles muito mais sofisticados que o video-game caseiro. Este, por sua vez, valia-se do "joystick" e de botões. E dá-lhe botões. Já que o aparelho tinha que ser "generalista" (precisava ter a habilidade de jogar muitos tipos de jogos diferentes) não podia se especializar nos controles. Sempre tinha alguém que tentava algo diferente, claro. Mas só valia para um jogo ou dois. As vezes dava errado...
E às vezes dava certo (Guitar Hero, alguém?). Com o Wii, você tem um video-game generalista mas cujo controle é tão versátil que você pode experimentar desde jogar tênis ou golfe ou boxe, até mesmo lutar com a espada Jedi (com um Luke Skywalker feito de Lego, por enquanto).

Mas um outro componente importante dos jogos eletrônicos do Playland, além da forma de controle, era a duração de cada partida. Como eram desenhados para lidar com muita gente (formando fila atrás, cada um com sua fichinha ranhurada comprada com as moedas do pai), as partidas não duravam muito mais que 3 a 5 minutos.

Essa fração, acreditem em mim, é a duração perfeita (o chamado "sweet spot") para um pai, mãe, avô, avó, etc., que não tem saco de ficar entendendo a história, correndo atrás de vinte mil itens diferentes numa jornada RPG de 40 horas, fazendo meia hora de "camping" para conseguir o "headshot" perfeito ou se matando pra passar do chefão.

No final das contas, o segundo componente de sucesso do Wii é o tipo dos jogos que ele ofereceu. É o jogo que você liga e já está jogando rapidamente. E cada partida dura alguns minutos, ou ainda quando dura mais, nada é tão sério (quão sério pode ser sacudir as moscas de uma banana? -- "WarioWare: Smooth Moves") que você não possa desligar em um segundo quando sua filha chora (o controle do Wii contém o botão de liga-desliga nele próprio, como um controle remoto; essa característica se destaca quando você tem mais de um controle e realiza que, de repente, você tem quatro botões de liga-desliga).

Do meu ponto de vista, isso explica a dificuldade que os outros parceiros da Nintendo estão tendo em vender "software" na plataforma. Apenas a Nintendo tem vendido bem no seu próprio "hardware", pois ela sabe exatamente pra que o Wii foi lançado. Um público-alvo bem diferente do XBox 360 e do PS3, o "non-gamer", essa criatura esquecida pelos consoles de outrora, mas que é muitas vezes mais numerosa que todos os "hard-core gamers" juntos.

Claro, você pode lançar o "Call of Duty" no Wii, mas as vendas não vão ser grande coisa: quem comprou o Wii não é um aficionado. É um pai, uma mãe que lembram de como era gostoso quando tinham 10, 15 anos jogar o Atari, Activision, MSX, NES, etc., e além do mais não encontram opções de entretenimento mais atraentes quando ligam a TV (Big Brother falado em flamengo é jogo duro). Essa turma só tem 15 minutos entre ligar a TV e o filho querendo tomar leite pra ir dormir.

As peças do quebra-cabeça se encaixaram quando vi hoje uma matéria a respeito do fechamento de vários "arcades" (os nossos Playlands) no Japão. Não me surpreenderia se isso chegasse a atingir outros países com farta oferta de Wii a preços decentes -- o que não é o caso do Brasil.

Parabéns a Nintendo por não ter feito o óbvio, e ter tido a coragem de se aventurar a expandir o mundo dos video-games para o resto de nós, que já não fazem mais parte do mundinho fechado dos "gamers" de hoje em dia. E obrigado por ter trazido a Mara o lado negro da força... :)